Bloqueio SisbaJud antes da folha: o que a empresa deve fazer nas primeiras horas
Se a conta da sua empresa foi bloqueada pelo SisbaJud na véspera da folha, não espere o banco resolver. O banco apenas cumpre a ordem judicial. Você precisa reunir provas, calcular o valor exato da folha e pedir ao juiz o desbloqueio parcial para salários e encargos.
Também será necessário montar um plano provisório de caixa. Ele pode envolver outra conta da empresa, aporte formal dos sócios, negociação com fornecedores ou consignação em juízo. O objetivo é evitar atraso enquanto o pedido tramita.
O que conferir nas primeiras 24 horas
1. Identifique o valor e a origem do bloqueio
Baixe o extrato completo de cada conta atingida e confira:
- saldo existente antes da ordem;
- data e horário do bloqueio;
- valor efetivamente retido;
- referência ao “bloqueio judicial” ou número do processo;
- eventual saldo que permaneceu disponível.
Faça também capturas de tela com data e horário. Salve extratos, prints e comunicações do banco em uma pasta identificada, como “Bloqueio SisbaJud – outubro de 2026”. Esses documentos mostram ao juiz o impacto concreto da medida.
2. Calcule quanto a empresa precisa para pagar a folha
Não peça “a liberação do valor necessário à operação”. Informe um número fechado. Por exemplo: R$ 180.000,00 em salários brutos de 35 empregados, mais R$ 30.000,00 em encargos, totalizando R$ 210.000,00.
Peça ao contador uma planilha com nome e CPF dos empregados, salário bruto e líquido, data prevista de pagamento e encargos correspondentes. Separe empregados celetistas de sócios, diretores e prestadores, pois a urgência costuma ser mais convincente quando vinculada diretamente à folha dos trabalhadores.
3. Avise contador, RH e advogado
O atraso pode gerar multas, reclamações trabalhistas e dificuldades para recolher INSS e FGTS. O contador deve calcular os valores e vencimentos; o RH precisa orientar os empregados; o advogado deve verificar o processo que originou a ordem.
Se houver dinheiro em outra fonte, avalie a consignação em juízo. Ela pode documentar que a empresa tentou colocar os salários à disposição, mesmo sem conseguir movimentar a conta bloqueada. A medida exige análise do caso e não substitui automaticamente o pagamento direto aos empregados.
Como pedir o desbloqueio parcial ao juiz
Petição no processo que determinou a ordem
O pedido deve ser apresentado no próprio processo de execução ou cumprimento de sentença. Reclamar com o gerente, falar com o cartório ou protocolar em outro processo não libera o dinheiro.
Uma formulação objetiva seria:
“Requer a liberação da quantia de R$ 210.000,00, em 48 horas, exclusivamente para pagamento dos salários e encargos da folha da competência 10/2026, mantendo-se bloqueado o valor remanescente como garantia do juízo.”
O advogado deve anexar extratos, planilha da folha, guias de INSS e FGTS, contrato social, procuração e comprovante de titularidade da conta. Também pode indicar uma conta específica para receber e movimentar exclusivamente o valor autorizado.
Tutela de urgência e menor onerosidade
A tutela de urgência precisa mostrar o dano concreto: salários vencendo em determinada data, número de empregados afetados, valor necessário e risco de paralisação. O pedido deve explicar por que a liberação parcial preserva a operação sem eliminar a garantia do credor.
A empresa pode oferecer contrapartidas, como prestação de contas em 48 horas, manutenção do bloqueio sobre o saldo restante ou apresentação de outro bem. A proposta ganha consistência quando a empresa também apresenta uma negociação de pagamento da dívida, em vez de pedir apenas tempo.
Excesso de bloqueio e substituição da garantia
Verifique se o bloqueio ultrapassou o valor atualizado da dívida. Também examine se atingiu valores de terceiros, depósitos feitos especificamente para a folha ou quantia já coberta por outra garantia.
Outra alternativa é oferecer penhora diferente. Dependendo do caso, podem ser discutidas:
- penhora de faturamento limitada, como 5% a 10% da receita mensal;
- aplicações financeiras não usadas na operação diária;
- veículos, imóveis ou máquinas não essenciais;
- outros ativos aceitos pelo credor e pelo juízo.
Veja também os cuidados descritos em penhora de faturamento e como limitar sem pagar multa. Percentual sem análise do fluxo de caixa pode inviabilizar a empresa.
Documentos que aumentam a chance de análise rápida
Extratos e comprovantes do bloqueio
- extrato em PDF do dia anterior e do dia da ordem;
- identificação do lançamento judicial;
- prints do internet banking, se o PDF ainda não estiver disponível;
- número do processo e do juízo responsável.
Folha, encargos e vencimentos
- relatório da folha com nomes, CPFs, salários e valores líquidos;
- data de pagamento prevista em contrato ou calendário interno;
- guias de INSS e FGTS da competência afetada;
- estimativa de juros e multas pelo atraso;
- documentos de ações trabalhistas em curso, quando relevantes.
Documentação da empresa
- contrato social e última alteração consolidada;
- prova de quem pode representar a empresa;
- procuração para atuação no processo;
- comprovante de titularidade das contas envolvidas.
Como pagar a folha enquanto o pedido é analisado
Conta alternativa e aporte dos sócios
Se existir outra conta da empresa não atingida, use-a com controle separado. Se os sócios colocarem dinheiro, formalize um contrato de mútuo ou avalie aumento de capital, conforme a estrutura societária.
Faça transferências identificadas e guarde os comprovantes. Um aporte de R$ 210.000,00 sem contrato, sem origem demonstrada e sem registro contábil pode gerar questionamentos sobre confusão patrimonial.
Não use a conta pessoal de um sócio para movimentar toda a operação. Se isso for inevitável para uma despesa pontual, documente a finalidade, o valor, o reembolso e a relação com a folha.
Negociação com fornecedores e bancos
Com o fluxo de caixa projetado, peça aos fornecedores estratégicos prorrogação de 7 a 15 dias para títulos próximos do vencimento. Nos bancos que ainda mantêm contratos ativos, avalie ajuste temporário das parcelas ou um período curto de stand still.
Cheque especial empresarial, cartão corporativo e antecipação de recebíveis podem cobrir despesas urgentes, mas exigem cálculo do custo total. Uma operação de sete dias pode carregar juros, tarifas e seguros que tornam a emergência mais cara do que o previsto. Confira também o conteúdo sobre tarifas ocultas em contratos bancários PJ.
Erros que costumam prejudicar o pedido
Petição genérica
Alegar apenas que “a empresa precisa do dinheiro” não demonstra urgência. O juiz precisa saber quanto será pago, a quem, em qual data e qual valor continuará garantindo a execução.
Transferências sem documentação
Movimentar dinheiro entre sócios, empresas do grupo e contas pessoais sem contrato ou comprovante dificulta explicar a origem dos recursos. Também pode alimentar discussões futuras sobre responsabilidade patrimonial.
Prometer pagamento sem cumprir
Se o juiz liberar R$ 210.000,00 para a folha, use o valor conforme autorizado e junte os comprovantes. A empresa deve apresentar os pagamentos de salários e as guias recolhidas no prazo determinado.
O que fazer depois do desbloqueio
O bloqueio costuma revelar um problema anterior: parcelas vencidas, CCB com vencimento antecipado, juros elevados, tarifas não percebidas ou garantias pessoais prestadas por aval e fiança. Depois de resolver a folha, revise os contratos e levante o passivo bancário completo.
Separe as dívidas por credor, saldo, garantia, taxa, vencimento e risco de execução. Essa fotografia permite negociar com prioridade e avaliar medidas sobre alienação fiduciária, penhora de faturamento, bens empresariais e patrimônio dos sócios.
Para o próximo ciclo, mantenha uma conta destinada à folha e uma reserva mínima equivalente a uma folha completa mais encargos, sem tratar isso como blindagem contra novas ordens. Se o bloqueio já alcançou avalistas, fiadores ou bens particulares, procure orientação antes de transferir ativos ou alterar a estrutura societária.
Reúna hoje os extratos, a planilha da folha e o número do processo. Com esses documentos, um advogado pode avaliar o desbloqueio parcial, a substituição da garantia e a renegociação da dívida diretamente no processo em que o SisbaJud foi determinado.
Acompanhe e fale com a gente: Instagram · WhatsApp
Perguntas frequentes
Em quanto tempo devo peticionar para pedir desbloqueio parcial?
Peticione imediatamente no processo que originou a ordem judicial; idealmente nas primeiras 24 horas, anexando extratos e a planilha da folha para demonstrar urgência e risco de atrasos.
Posso pagar a folha com aporte informal de sócios enquanto aguardo decisão?
É possível, mas o aporte deve ser formalizado por contrato de mútuo ou registro contábil e comprovantes de transferência para evitar alegações de confusão patrimonial ou responsabilização futura.
O banco pode liberar automaticamente parte do saldo para salários?
Não. O banco cumpre a ordem judicial; apenas o juiz pode autorizar desbloqueio parcial, salvo se houver previsão expressa na própria ordem que permita liberação específica.
Quais documentos aumentam a chance de deferimento do pedido?
Extratos com identificação do bloqueio, planilha da folha com nomes e CPFs, guias de INSS/FGTS e comprovante de titularidade da conta são fundamentais para demonstrar o valor exato e a necessidade urgente.