Como provar que os recebíveis do gateway não pertencem integralmente à sua empresa
Se a Justiça bloqueou valores de uma conta ligada a e-commerce, você precisa separar duas coisas: o dinheiro que realmente pertence à empresa e os valores que apenas passaram pelo sistema para chegar a vendedores, parceiros ou prestadores.
O caminho é reconstruir o fluxo da venda até o repasse. Solicite ao PSP ou gateway — como PagSeguro, Mercado Pago, Pagar.me ou Iugu — relatórios detalhados por transação, com data, meio de pagamento, valor bruto, taxas, estornos, chargebacks, valor líquido e destinatário.
Se a empresa opera como marketplace, destaque as vendas feitas em nome de terceiros. O relatório deve indicar o CNPJ ou CPF do vendedor, o valor destinado a ele e a data do repasse. Sem essa identificação, o bloqueio pode atingir valores que não constituem receita da sua empresa.
Junte também os contratos com o gateway e com os vendedores. Procure cláusulas sobre subcontas, split de pagamento, comissões e repasses automáticos. O contrato deve deixar claro se a empresa vende produtos próprios ou apenas intermedeia a venda e fica com uma comissão.
As notas fiscais ajudam a fechar essa ligação. Apresente as notas emitidas pela empresa sobre comissões ou serviços de intermediação e, quando disponíveis, as notas dos vendedores. Inclua alguns comprovantes de entrega para relacionar o pedido, a venda e o destinatário do pagamento.
Se o gateway utiliza wallets ou subcontas, peça os extratos correspondentes. Eles podem demonstrar que o sistema já separa os valores de cada vendedor antes de transferir apenas a comissão ou o saldo devido à empresa.
O cálculo final deve mostrar quanto está efetivamente disponível. A planilha precisa partir da receita bruta e descontar taxas do PSP, estornos, chargebacks, impostos retidos e repasses a terceiros. O saldo restante é o valor que pode ser discutido como receita própria.
Quais documentos apresentar ao juiz
Extratos isolados raramente resolvem a questão. O juiz precisa conseguir acompanhar uma operação completa e verificar, sem depender de explicações longas, quem recebeu cada parcela.
Documentos essenciais
- Contrato com o PSP ou gateway, incluindo anexos e aditivos.
- Relatórios de conciliação diária ou mensal, com as transações individualizadas.
- Extratos bancários da conta PJ que recebe os repasses.
- Extratos de subcontas ou wallets, quando existirem.
- NF-e ou NFS-e dos últimos 3 a 6 meses.
- Comprovantes de estornos e chargebacks.
- Comprovantes de repasses por PIX, TED ou split automático.
Como organizar a prova
Monte um índice numérico e um resumo de até duas páginas. Explique o modelo de negócio, o funcionamento do gateway, o prazo de repasse e a proporção média entre a comissão da empresa e os valores destinados a terceiros.
Escolha de 3 a 5 transações completas. Para cada uma, reúna o pedido no site, o registro no PSP, a nota fiscal, o comprovante de entrega e, se houver marketplace, o extrato do repasse ao vendedor.
Envie os documentos em PDF pesquisável, agrupados por tipo e período. Mantenha a planilha original em Excel ou CSV para eventual conferência do juízo ou de perito.
O erro mais comum é juntar apenas extratos bancários. Sem contrato, nota fiscal e comprovante de repasse, o dinheiro fica sem origem demonstrada e pode parecer receita livre da empresa.
Quais argumentos usar para pedir o desbloqueio parcial
O pedido deve mostrar que o bloqueio atingiu valores de terceiros ou comprometeu integralmente o caixa operacional. Não basta afirmar que a empresa terá dificuldades: indique quanto precisa para pagar folha, aluguel, fornecedores e tributos, e em que data esses pagamentos vencem.
A execução deve buscar o pagamento sem destruir a fonte que gera recursos para o próprio credor. Por isso, o pedido pode combinar a menor onerosidade da execução, a preservação da atividade empresarial e a proporcionalidade da medida.
Os tribunais admitem, em muitos casos, a penhora de faturamento limitada a um percentual, normalmente entre 5% e 30% do faturamento líquido. O percentual depende da situação financeira, da prova apresentada e da necessidade de preservar a operação. Veja também o artigo sobre limitar penhora de faturamento via SisbaJud.
Você pode pedir:
- Penhora de percentual definido, como 30% do faturamento líquido, liberando o saldo operacional.
- Liberação de um piso mensal, por exemplo, R$ 80.000,00 para folha, aluguel e fornecedores essenciais, com penhora do excedente.
Apresente projeções para 30, 60 e 90 dias. Se o bloqueio integral causar atraso de salários, interrupção de serviços ou perda de fornecedores, explique como isso reduz a capacidade de pagamento da dívida.
Como estruturar a petição de urgência
Quando o bloqueio já ocorreu, a petição precisa identificar o problema e o pedido logo nas primeiras páginas.
- Modelo de negócio: loja própria, marketplace ou intermediação.
- Detalhes do bloqueio: data, valor, conta atingida e consequência imediata.
- Origem dos valores: percentual de terceiros, taxas, estornos e receita própria.
- Documentos: índice e explicação objetiva de cada grupo de anexos.
- Pedido: percentual ou valor mínimo de liberação, sustentado pelo fluxo de caixa.
Peça a intimação do PSP para apresentar extratos analíticos, relatórios de split, contratos de subconta e informações sobre o prazo de liquidação. Uma resposta oficial do gateway pode confirmar a segregação que a empresa afirma existir.
Se houver divergência contábil, peça prova pericial. Também podem ser formulados pedidos subsidiários: liberação imediata para folha mediante contracheques, pagamento de fornecedores identificados por notas e contratos ou audiência de conciliação para fixar o percentual da penhora.
Quando pedir informações diretamente ao gateway
O pedido ao juízo pode abranger os últimos 90 dias e solicitar:
- Extratos analíticos de cada transação.
- Existência de subcontas, wallets ou split vinculados a terceiros.
- Identificação de CNPJ ou CPF e percentuais de repasse.
- Contrato ou termo de adesão vigente.
- Descrição do fluxo de liquidação e prazo de transferência.
Em um marketplace, os vendedores atingidos podem ser cientificados da penhora ou chamados ao processo, conforme a documentação demonstre que valores deles foram alcançados.
Evite basear a defesa em conversas com o atendimento. Prefira relatórios emitidos pelo sistema e respostas encaminhadas diretamente ao juízo, com assinatura digital ou por canal institucional.
Exemplo de cálculo do valor que pode ser liberado
Considere uma empresa com faturamento bruto mensal de R$ 200.000,00 pelo gateway:
- Taxas do PSP, de 5%: R$ 10.000,00.
- Chargebacks e estornos: R$ 8.000,00.
- Impostos retidos: R$ 20.000,00.
- Repasses a vendedores: R$ 50.000,00.
O valor líquido atribuído à empresa seria de:
R$ 200.000,00 – R$ 10.000,00 – R$ 8.000,00 – R$ 20.000,00 – R$ 50.000,00 = R$ 112.000,00.
As despesas essenciais do mês somam:
- Folha: R$ 60.000,00.
- Aluguel e estrutura: R$ 15.000,00.
- Fornecedores críticos: R$ 25.000,00.
Com despesas de R$ 100.000,00, a empresa pode pedir a liberação desse valor ou, alternativamente, a penhora de 30% do faturamento líquido. O pedido precisa ser compatível com extratos, notas e pagamentos efetivamente realizados.
| Mês | Receita bruta | Deduções | Faturamento líquido | Despesas essenciais | Valor pedido |
|---|---|---|---|---|---|
| Mês 1 | R$ 200.000,00 | R$ 88.000,00 | R$ 112.000,00 | R$ 100.000,00 | R$ 100.000,00 (≈ 89%) |
Como responder às objeções do credor
O exequente pode alegar risco de fraude, dificuldade de fiscalização ou perda da garantia da execução. Antecipe essas objeções com medidas verificáveis:
- Prestação de contas semanal ou mensal, com extratos e planilha de conciliação.
- Autorização para o juízo solicitar informações diretamente ao PSP.
- Perícia contábil para conferir o faturamento líquido.
- Caução, seguro garantia ou indicação de bem menos essencial à operação.
Também vale negociar o parcelamento da dívida e revisar o contrato bancário. Uma CCB pode conter tarifas indevidas ou encargos discutíveis; veja o material sobre tarifas ocultas em CCB.
O que separar nos próximos 7 dias
- Contratos com o PSP, vendedores e fornecedores principais.
- Extratos analíticos, extratos bancários e relatórios de repasse dos últimos 3 a 6 meses.
- Notas fiscais, folha, tributos e despesas fixas.
- Planilha com receita bruta, deduções, repasses e valor líquido.
- Comprovantes de pagamentos que não podem ser interrompidos.
Com esse material, o advogado poderá pedir o desbloqueio parcial, a intimação do gateway e, se necessário, a fixação de percentual de penhora sobre o faturamento líquido. Quanto mais rápido você demonstrar a origem de cada valor, menor o risco de o bloqueio tratar dinheiro de terceiros como patrimônio da empresa.
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Perguntas frequentes
O que diferencia receita própria de valores em trânsito no gateway?
Receita própria é o valor líquido que permanece com a empresa após taxas, estornos, impostos e repasses. Valores em trânsito são quantias destinadas a vendedores ou parceiros identificadas em relatórios de conciliação do PSP.
Quais relatórios do gateway são mais persuasivos para o juiz?
Relatórios de conciliação por transação com CNPJ/CPF do destinatário, split detalhado, datas de repasse e comprovantes de transferência são os mais persuasivos. Respostas oficiais do PSP ao juízo, assinadas ou emitidas por canal institucional, reforçam a prova.
É possível pedir liberação de valores para pagar folha mesmo com bloqueio total?
Sim: a petição pode requerer liberação imediata de um piso para folha mediante apresentação de contracheques e demonstrativo de vencimentos. Alternativamente, peça penhora de percentual do faturamento preservando o caixa operacional.
Como o juiz verifica que estou repassando corretamente aos terceiros?
O juízo pode intimar o PSP para apresentar extratos analíticos, comprovantes de repasse e contratos de subconta. Também é possível requerer perícia contábil para conferir a conciliação entre vendas, repasses e notas fiscais.